segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Entrevista com Nancy Fraser


"Fraser, que no Brasil é conhecida pelo debate com o também filósofo Axel Honneth, começa dizendo que há hoje em dia diferentes formas de conflitos sociais. Além de questões de redistribuição, levantadas tradicionalmente pelos movimentos de classe, há conflitos de outra ordem, envolvendo novos movimentos sociais, como o feminismo. Em seus textos, Fraser os caracteriza como movimentos por reconhecimento. Por fim, diz ela na entrevista, o fenômeno conhecido por "globalização" trouxe novos desafios: o de organizar essas reivindicações em diferentes níveis. Hoje não é mais possível ficar apenas no nível local e nacional. Questões envolvendo o meio ambiente, por exemplo, precisam ser tratadas em um nível mais amplo.

Essas novas formas de conflito demandam um novo tipo de crítica, não apenas centrada, como no modelo marxista, em uma contradição específica, ou voltada apenas para um agente emancipador, como a classe trabalhadora. O entrevistador pergunta então se esses novos movimentos sociais, ao contrário, não estariam morrendo. Ela diz que, na prática, os movimentos foram afetados pela "Guerra ao Terror", ou melhor, pela resposta dada pelo governo americano ao 11 de setembro. Isso mostrou como é fácil "fabricar" "inimigos", diz ela."
http://www.politikaetc.info/2010/02/entrevista-com-nancy-fraser.html

O Mito da Beleza P2.

Livro O Mito da beleza de Naomi Wolf
http://pt.scribd.com/doc/528573/Naomi-Wolf-O-mito-da-beleza

"Pesquisas recentes revelam com uniformidade que em meio à maioria das mulheres que trabalham, têm sucesso, são atraentes e controladas no mundo ocidental, existe uma subvida secreta que vem envenando nossa liberdade: imersa em conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle."

"Não é por acaso que tantas mulheres potencialmente poderosas se sentem dessa forma. Estamos em meio a uma violenta reação contra o feminismo que emprega imagens da beleza feminina como uma arma política contra a evolução da mulher: o mito da beleza."

"Ele é a versão moderna de um reflexo social em vigor desde a Revolução Industrial. À medida que as mulheres se liberaram da mística feminina da domesticidade, o mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística definhava, para assumir sua tarefa de controle social."

"A reação contemporânea é tão violenta, porque a ideologia da beleza é a última das antigas ideologias femininas que ainda tem o poder de controlar aquelas mulheres que a segunda onda do feminismo teria tornado relativamente incontroláveis. Ela se fortaleceu para assumir a função de coerção social que os mitos da maternidade, domesticidade, castidade e passividade não conseguem mais realizar. Ela procura neste instante destruir psicologicamente e às ocultas tudo de positivo que o feminismo proporcionou às mulheres material e publicamente. Essa reação opera com a finalidade de eliminar a herança deixada pelo feminismo, em todos os níveis, na vida da mulher ocidental."

"Paralelamente, o peso das modelos de moda desceu para 23% abaixo do peso das mulheres normais, aumentaram exponencialmente os distúrbios ligados à nutrição e foi promovida uma neurose de massa que recorreu aos alimentos para privar as mulheres da sua sensação de controle."

"As mulheres devem querer encarná-la, e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem. Encarnar a beleza é uma obrigação para as mulheres, não para os homens, situação esta necessária e natural por ser biológica, sexual e evolutiva. Os homens fortes lutam pelas mulheres belas, e as mulheres belas têm maior sucesso na reprodução. A beleza da mulher tem relação com sua fertilidade; e, como esse sistema se baseia na seleção sexual, ele é inevitável e imutável. Nada disso é verdade. A "beleza" é um sistema monetário semelhante ao padrão ouro. Como qualquer, sistema, ele é determinado pela política e, na era moderna no mundo ocidental, consiste no último e melhor conjunto de crenças a manter intacto o domínio masculino. Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo as quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriaram."

""A "beleza" não é universal, nem imutável, embora o mundo ocidental finja que todos os ideais de beleza feminina se originam de uma Mulher Ideal Platônica. O povo maori admira uma vulva gorda, e o povo padung, seios caídos.""

"O fato de as mulheres competirem entre si através da "beleza" é o inverso da forma pela qual a seleção natural afeta outros mamíferos. A antropologia rejeitou a teoria de que as fêmeas teriam de ser "belas" para serem selecionadas para reprodução. Evelyn Reed, Elaine Morgan e outros autores refutaram afirmativas da sociobiologia no sentido de a poligamia masculina e a monogamia feminina serem inatas.São as fêmeas dos primatas superiores que tomam a iniciativa sexual. Elas não só procuram e desfrutam do sexo com muitos parceiros,como também "toda fêmea não-prenhe tem a sua vez de ser a mais desejável de todo o grupo. Esse ciclo não pára enquanto ela estiver viva".Dizem os especialistas em sociobiologia que os órgãos sexuais cor- de-rosa e inflamados das primatas seriam análogos às atitudes humanas relacionadas à beleza feminina, quando na verdade essa característica da fêmea primata é não hierárquica e universal."

"Se o mito da beleza não se baseia na evolução, no sexo, no gênero, na estética, nem em Deus, no que se baseia então? Ele alega dizer respeito à intimidade, ao sexo e à vida, um louvor às mulheres. Na realidade ele é composto de distanciamento emocional, política, finanças e repressão sexual. O mito da beleza não tem absolutamente nada a ver com as mulheres. Ele diz respeito às instituições masculinas e ao poder institucional dos homens"
"As qualidades que um determinado período considera belas nas mulheres são apenas símbolos do comportamento feminino que aquele período julga ser desejável. O mito da beleza na realidade sempre determina o comportamento, não a aparência. A juventude e (até recentemente) a virgindade foram "bonitas" nas mulheres por representarem a ignorância sexual e a falta de experiência. O envelhecimento na mulher é "feio" porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas. E o que é mais instigante, a nossa identidade deve ter como base a nossa "beleza", de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa, trazendo nosso amor-próprio, esse órgão sensível e vital, exposto a todos."

" O mito da beleza, em sua forma atual, ganhou terreno após as convulsões sociais da industrialização, quando foi destruída a unidade de trabalho da família e a urbanização e o incipiente sistema fabril exigiam o que os técnicos em ciências da época chamaram "esfera isolada"de domesticidade, que sustentava a nova categoria do " 'ganha-pão", aquele que saía de casa para o local de trabalho todos os dias. Houve uma expansão da classe média, um progresso no estilo de vida e nos índices de alfabetização, uma redução no tamanho das famílias. Surgiu uma nova classe de mulheres alfabetizadas e ociosas. Da submissão dessas mulheres à domesticidade forçada, dependia a evolução do capitalismo industrial. A maioria das nossas hipóteses sobre a forma pela qual as mulheres sempre pensaram na "beleza" remonta no máximo a 1830, quando se consolidou o culto à domesticidade e inventou-se o código da beleza."

"Ajudar as mulheres a desestruturar o mito é, no entanto, algo do próprio interesse dos homens em um nível mais profundo. A próxima será a vez deles. Os anunciantes recentemente perceberam que o enfraquecimento da confiança sexual funciona seja qual for o sexo do consumidor. SegundoTheGuardian, "os homens estão preferindo olhar para o espelho do que para as garotas. Homens lindos podem ser vistos hoje em dia vendendo de tudo..." Usando imagens da subcultura homossexual masculina, a propaganda começou a retratar o corpo masculino num mito da beleza próprio. Conforme essas imagens se concentram mais na sexualidade masculina, elas prejudicarão o amor-próprio sexual dos homens em geral. Como os homens têm um condicionamento ainda maior para se separarem dos seus corpos, e para competir em níveis de excesso desumanos, seria concebível que a versão masculina pudesse prejudicar os homens ainda mais do que a versão feminina prejudicou as mulheres. Alguns psiquiatras estão prevendo um aumento nas estatísticas masculinas de distúrbios da alimentação. Agora que os homens estão sendo vistos como um mercado virgem a abrir as suas portas do ódio de si mesmo, começaram a surgir imagens que dizem aos homens heterossexuais as mesmas meias-verdades, sobre o que as mulheres querem e como elas vêem, tradicionalmente transmitidas às mulheres heterossexuais a respeito dos homens. Se eles caírem nessa armadilha e ficarem presos, isso não será uma vitória para as mulheres. Na realidade, ninguém sairá ganhando."




quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Texto final - Cultura da droga, construção identitária e preconceito

Apresento agora meu texto final, após tres meses de pesquisas em fontes textuais e audiovisuais, como documentários por exemplo. Agora exponho aqui uma entrevista de um amigo, João da Silva, que tem por objetivo questionar se a cultura da droga estabelece realmente um consenso entre as sensações e construções feitas pelos usuários através da socialização. As declarações encontraram pontos de encontro e de conflito com o discurso por vezes pregado como verdade de que os usuários de droga são apoiadores de políticas que visam a trazer para a legalidade o consumo de maconha, ou mesmo o comércio da droga.

É possível também observar a construção identitária do sujeito que utiliza droga ante seu grupo social, e a mudança de percepção do usuário ao longo do tempo. Essas duas observações são importantes para a compreensão da cultura da droga e sua difusão com o objetivo de melhor entendimento das autoridades nas políticas voltadas ao usuário e ao traficante.

O documentário "Quebrando o Tabu" mostra que o Estado falhou na luta contra as drogas, e que a descriminalização, e após um tempo a legalização da maconha seria uma maneira sensata de conter o avanço do tráfico e da violência, que hoje não são vistos apenas nos grandes centros urbanos.

Com isso exponho aqui uma entrevista com um grande amigo que me fez revelações com muita naturalidade, confiança e respeito. Portanto espero que em minha edição eu tenha trabalhado de forma a preservar esses aspectos. Boa Leitura!

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Apresento agora meu texto final, após tres meses de pesquisas em fontes textuais e audiovisuais, como documentários por exemplo. Agora exponho aqui uma entrevista de um amigo, João da Silva, que tem por objetivo questionar se a cultura da droga estabelece realmente um consenso entre as sensações e construções feitas pelos usuários através da socialização. As declarações encontraram pontos de encontro e de conflito com o discurso por vezes pregado como verdade de que os usuários de droga são apoiadores de políticas que visam a trazer para a legalidade o consumo de maconha, ou mesmo o comércio da droga.

O documentário "Quebrando o Tabu" mostra que o Estado falhou na luta contra as drogas, e que a descriminalização, e após um tempo a legalização da maconha seria uma maneira sensata de conter o avanço do tráfico e da violência, que hoje não são vistos apenas nos grandes centros urbanos.

Com isso exponho aqui uma entrevista com um grande amigo que me fez revelações com muita naturalidade, confiança e respeito. Portanto espero que em minha edição eu tenha trabalhado de forma a preservar esses aspectos. Boa Leitura!

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Esse texto se inicia com as declarações de meu entrevistado, João da Silva*, mostrando uma perspectiva que me surpreendeu, visto que imaginava exposições de ideias bem contrárias do que obtive. Minhas expectativas, baseadas em construções midiáticas, como estatísticas, e também construções ideológicas baseadas em senso comum me lavaram a um engano pré entrevista.

Numa conversa de msn pedi autorização ao meu amigo, João da Silva, para colher declarações acerca de suas experiências com drogas, que aceitou sob uma condição: não expor seu nome no trabalho. Como demonstração de amizade e respeito os nomes utilizados neste texto foram alterados para preservar a identidade de meu entrevistado.

Logo que chego em sua casa sua mulher, Sonia*, está no portão conversando com uma senhora da vizinhança. Após a conversa, ela coloca o carro na garagem e eu a ajudo a levar as despesas pra dentro da casa.

Após cerca de dez minutos meu entrevistado chega, tinha ido comprar óleo lubrificante para seu carro, portanto percebo que não seria uma entrevista convencional, baseada em perguntas e respostas fechadas, se tratava de uma conversa entre amigos, porém com um objetivo, sendo atingido entre uma interrupção e outra para ajuste do automóvel.

“Comecei a fumar maconha aos treze anos de idade por influência de amigos. Meu pai tinha saído de casa deixando minha família endividada e eu comecei a trabalhar, a maconha era uma forma de me trazer uma sensação agradável de forma barata. Se o cara não quer gostar então nem experimenta, porque é muito bom.” Apesar de citar o abandono da família por parte do pai, João não estabelece uma relação entre a saída do pai de casa e sua iniciação com a maconha. “Passei por muita coisa triste na infância, mas isso não tem ligação com o uso da maconha”.

“Eu queria ser o cara, naquela época era diferente, os amigos influenciavam a gente, mas porque faziam escondidos, a gente nunca tinha certeza e isso incitava a curiosidade. Hoje é tudo aberto, qualquer lugar você vê. E naquela época a gente usava pra pegar as meninas, elas achavam o máximo.” Nesta, evidencio a crítica do entrevistado sobre o conflito de gerações, João tem pouco mais de quarenta anos de idade e julga que sua experiência foi em um contexto diferente do contexto atual, bem como a maconha “daquela época era bem diferente da atual”. João explica a diferença do que fumava no início para o que fuma atualmente:
“Naquela época a maconha era bem mais forte, hoje em dia eu fumo mato, tinha uma que o pessoal chamava de cabeça de nego, essa aí era mais forte que a hidropônica. Hoje em dia prefiro a hidropônica, o ruim é o preço, um baseado por cinco reais, enquanto a normal você compra três ou quatro baseados pelo mesmo preço.
Tem uma história engraçada, por volta de 1985 tinha um cargueiro trazendo carregamento de maconha dentro de latas e iria aportar no litoral do Paraná, mas aí eles avistaram a Guarda Costeira que tava vindo pra cima deles. Não tiveram dúvidas: abriram as comportas e soltaram as latas no mar. Olha, até em praias do Rio Grande do Sul apareciam essas latas! Fui muitas vezes pra achar, mas a polícia tava em cima e eu acabei comprando, foi umas das melhores qualidades de maconha dessa nova geração que eu já experimentei. Era a maconha da lata, como ficou conhecida.”

Perguntado sobre a relação de sua família com ele e o uso de drogas, João não hesitou em dar um longo depoimento, não só narrando os acontecimentos e curiosidades, mas realizando uma análise crítica de sua postura e de sua família ante as consequências de sua condição de usuário e o preconceito e aceitação por parte de seus familiares.

“Antes de eu fazer dezoito anos meu pai já desconfiava, sabe como é, pelo uso da maconha o cara fica meio lerdo, não presta muita atenção nas coisas. Já depois dos dezoito eu não precisava esconder nada da minha família. Isso porque eu sempre sustentei meu vício com meu trabalho, meu suor, eu que me fodia pra bancar. Nunca tirei nada de casa pra trocar por droga[...] sempre tive consciência do que eu tava fazendo.
Na época que me acidentei – João sofreu um acidente de trabalho, caindo de uma construção, que o fez perder os movimentos das pernas – todos que sabiam que eu usava droga me acusavam de estar chapado na hora do serviço, mas aquele dia eu não tinha bebido nada nem fumado, acho que foi por isso que me acidentei (risos) [...]
Isso porque a maconha desperta em você, algumas características, na época que eu trabalhava na fabricação de móveis, alguns empregados ficavam putos porque, por exemplo, eles se matavam e produziam vinte peças, eu ficava na boa, fumava meu baseado tranquilo na hora do almoço, quando eu voltava eu produzia o dobro deles, foi uma época que eu ganhei muito dinheiro [...] Então se você é um cara criativo, ela vai despertar a criatividade, ela vai ficar mais aguçada, por exemplo."

Durante esta fala, percebo que ele menciona o álcool, então pergunto se ele é ou já foi adepto de outros tripos de drogas. Um pouco hesitante João declara que até os trinta e oito anos também cheirava cocaína, mas que já vinha querendo parar de usar, então conheceu sua esposa, Sônia, que o ajudou a parar.

“Então, cara, minha sequência foi: da maconha pro álcool, do álcool pra cocaína, porque é assim: a maconha te deixa relaxado, tranquilo, te traz uma sensação de bem-estar, já a cocaína te deixa agitado e traz instintos não bons, você pensa em roubar por exemplo[...]. Acontece que você tem seu estado normal, então usa a cocaína pra ficar agitado e usa a maconha pra ficar tranquilo, você acaba ficando no estado normal, entende? Eu tive essa consciência na época. Eu via tanta gente, amigos meus crescendo na vida, trabalhando, formando família. E os que estavam pior que eu estavam morrendo, acho que foram essas coisas que não me deixaram afundar de vez, sabe?
Então a maconha meio que me tirou da cocaína, porque eu sempre estava cheirando ou bebendo, então quando conheci a Sonia joguei bem limpo com ela, falei tudo que acontecia comigo, dos meus vícios e ela me ajudou também [...]
Uma vez eu fui comprar droga no morro e a polícia apareceu, os traficantes não recuaram e começou o tiroteio, eu dentro do carro no meio do fogo cruzado e o policial encostando a arma na minha cabeça mandando eu descer[...] deu um desespero, sorte que consegui manobrar o carro e saí correndo de lá.
Outra coisa que me fez tomar consciência do que eu tava fazendo foi que eu peguei uma puta, porque a Sônia sabe que eu sempre gostei de puta, tu come, paga e não precisa ficar ligando no dia seguinte, nem levar pra casa, é bem profissional mesmo [...] Então, ela tava no carro e resolveu fumar crack. Ela abriu uma frestinha do vidro e eu abri meu vidro inteiro, então ela acendeu o cachimbo... só o cheiro já liberou adrenalina em mim. Eu tentava tocar nela ela se afastava com os olhos arregalados e puxava todo o ar da fresta do vidro. Ah vendo aquilo eu abri a porta e mandei ela embora [...]
Então eu acho que por ter visto essas coisas eu fui vendo o que tava acontecendo comigo, e acho que foi por isso que não me afundei no crack também, porque eu tenho certeza que eu iria procurar coisas mais pesadas.
Se é que eu posso chamar de ponto positivo, na época que eu vivia em Porto Alegre ninguém me roubava. Eu era bem famoso por lá, conhecia gerentes e patrões.
Teve uma vez que me roubaram dez reais, eu cheguei pra um amigo meu mais graduado e falei que aquilo não podia acontecer, que eu tava sendo lesado. Ele encontrou o cara e na minha frente fez o cara se ajoelhar, encostou a arma na cabeça dele e me perguntou se eu queria ele vivo ou morto. Já meio assustado falei: 'Não, cara só quero meus dez reais' – e ele deu uma coronhada na cabeça do cara, xingou ele e deu outra na cara, chegou a arrancar um dente. E eu la falando pra ele ter calma que eu só queria meus dez reais. Ele soltou o cara que saiu correndo e voltou com meus dez reais.”

A partir disso João deu um encaminhamento para o fechamento da entrevista contando um pouco de sua trajetória como vendedor de maconha, como faz o uso da droga atualmente e o que pensa sobre as políticas anti-drogas e a legalização da maconha.

“Olha, Icaro, já trafiquei sim, mas em pequenas quantidades. Eu era patrão, o segundo na linha de recepção, repassava pra um gerente que vendia num lugar. Mas isso tudo não passava de dois quilos de maconha, era bem pouca coisa.
Eu fiz por necessidade, foi logo depois do meu acidente. Eu precisava de dinheiro, e não tinha como, então acabei entrando no ramo da venda de maconha também. E olha, foi um negócio bastante rentável,passei dois anos vendendo. Mas sabe o que acontece? Todo dinheiro que entra, sai com a mesma rapidez. Eu pagava rodada no buteco pros amigos, vivia gastando com mulher e gastava com mais droga também. Além disso meus amigos só vinham em casa porque queriam comprar e usar maconha.
Teve uma vez que eu cheguei em casa com dois quilos de maconha e guardei no armário, minha mãe entrou no quarto e já berrou: 'Mas já ta fumando de novo?!',e nem era meu aquilo, não tinha usado, mas aquilo lá fechado já exalava muito cheiro.
Mas o que fez eu parar de vender foi uma vez que a polícia me pegou, a sorte é que eu tava sem nada e eles não podiam me prender. Lembro que cheguei em casa e tirei tudo do meu armário, parei de vender e consumir droga por três meses, eu saía de casa e via carro estacionado, eles estavam em cima de mim, me monitorando mesmo, foi aí que parei de vender.
Também tem o preconceito da família, teve uma vez que eu levei uma picada de mosquito bem em cima de uma veia, minha mãe viu, agarrou meu braço e me acusou de injetar cocaína. Até sarar aquilo lá ela ficou bem desconfiada, mas eu nunca injetei, já vi e achei horrível, então não entrei nessa.
Então vendo essas coisas eu comecei a regredir no uso. Cheguei no meu limite e estou regredindo.
Hoje não me considero um viciado, uso a maconha para ficar sem a dor nas costas por causa do acidente, pra me acalmar mesmo, e esquecer da dor. E agora que eu descobri que ajuda no combate à pressão alta é por isso também (risos). Mas estou reduzindo, antes eu fumava cinquenta gramas por semana, hoje tem dia que eu nem fumo.
Também não aconselho ninguém a usar, é uma grana que você perde, que poderia estar fazendo outras coisas; indo ao teatro. Hoje eu penso assim, mas antigamente se me falassem de teatro ... (gargalhadas).
Também sou contra a legalização, o Brasil não está preparado pra isso. Se liberar vira algazarra. Eu não quero ter um drogado fumando maconha na frente do meu portão e não poder falar nada porque ele ta na legalidade, tem muita criança por aí que seria incentivada. Daí me dizem que cigarro e álcool também são liberados. Por mim, não seria, se eu pudesse, álcool e cigarro também seriam ilegais."


Depois das formalidades da entrevista sua mulher, Sonia, aparece na sala comentando histórias de quando ela foi para Amsterdã, que apesar de liberado o consumo não se via pessoas fumando nas ruas, e que ela se mostra a favor da legalização justamente para barrar um pouco do preconceito contra usuários. Nessa hora João intervém e afirma que o usuário perde muita credibilidade, visto que as pessoas não confiam nas capacidades da pessoa que utiliza droga.

Sônia também afirma que João disse em confissão ao padre da região que era usuário de maconha, e que o padre aceitou de forma mais respeitosa visto a condição de cadeirante de João e as dores físicas causadas por isso, mas João intervém novamente dizendo que depois da confissão o casal parou de ser convidado para as festas religiosas.

Com isso termino meu trabalho dizendo que atualmente as políticas anti-drogas estão mais voltadas ao preconceito contra o usuário, do que focando na prevenção e tratamento dos mesmos. Esse tipo de política deve ser alterado tendo em vista as cada vez mais comuns manifestações em apoio à descriminalização e legalização da maconha.

Se o Brasil tem pretenção de ampliar sua democracia e partir para descriminalização e legalização do uso da maconha devem ser tomadas medidas preventivas e não de preconceito acerca do tema. É necessário ampliar o sistema jurídico, político e de saúde antes de legalizar. O jurídico para não tratar usuário como criminoso, o político para regulamentar e normatizar as práticas de venda e uso da maconha, e o sistema de saúde para oferecer tratamento adequado aos que necessitam de apoio médico.





*Os nomes utilizados foram alterados para preservar a identidade do entrevisdo e demais participantes

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Algumas leituras de hoje, Miss 2011 e Misoginia

--Texto 1:

"Hoje de manha eu vi no portal do Yahoo! um link falando das candidatas a Miss Brasil 2011 que nao tem silicone. Abri, conferi e como nao estava fazendo nada mesmo, fui ver as fotos das-todas-as-candidatas.

E pasmei!

Simplesmente NENHUMA candidata negra.

Todas as candidatas seguindo um padrao que tornou muito dificil para mim estabelecer algum criterio de beleza, uma vez que todas as candidatas tem cabelos castanhos, longos, lisos/semi-ondulado/permanente visivel, e pele clara. Nao tem nenhuma candidata negra. Nem a Miss Bahia eh negra, levando-se em consideracao que uma boa parcela da populacao negra se localiza no estado bahiano. Nem ela.

Ao ver essas mulheres representarem o “padrao de beleza da mulher brasileira” destacado no concurso Miss Brasil 2011, acho impossivel nao pensar em racismo, especialmente quando 50,3% dos 184 milhoes de brasileiros sao negros(e pardos) (fonte aqui)

Racismo velado tipico da sociedade brasileira, infelizmente.

Ah! MAs importante lembrar que a Miss Noruega 2010 era… NEGRA! "

Miss Noruega

Fonte
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--Texto 2:
"A análise que faço do machismo hoje no Brasil, e talvez na América Latina, é de que ele é um tipo de misoginia. O machismo nosso hoje é uma aversão pelo feminino. "
"Odiamos o feminino na medida em que exaltamos o masculino. Aprendemos que ser masculino é mais importante que ser feminino. Ser masculino é prestigioso. Também criamos toda uma concepção do que é ser feminino. Ser feminino é ser sentimental, é ser frágil, é ser sensível, entre muitas outras coisas."
"Portanto, ser feminino não é apenas possuir uma vagina. Mas quem possui uma vagina sofre em dobro, porque se espera dessas pessoas um comportamento feminino. Essa forma de machismo se manifesta por todos os lados e inclusive dentro dos movimentos de minorias. "
"O gay afeminado também pode vir a sofrer deste preconceito dentro do próprio coletivo do qual faz parte, porque os gays não afeminados podem estar inseridos nessa lógica do machismo."" Mas o engraçado disso tudo é que os gays percebem que eles são oprimidos pela sociedade heteronormativa. Os gays podem perceber que o machismo os oprime. Mas eles podem não percebem que até eles mesmo são opressores quando lhes toca. O machismo só é percebido quando se infringe uma norma heterossexual: a de que homens se relacionam com mulheres. Contudo, o machismo não é percebido quando ele infringe uma conduta homonormativa: o de que gays devem ser masculinos. "

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Mais um adentro, desta vez meu:
As Miss Brasil de praticamente todos os tempos(existe algumas exceções...) são muitooooo iguais, não existe variedade, é como se fala-se "olha mulher, vc tem que ser assim para ser bonita" , e com isso muitas mulheres ficam insatisfeitas com seu corpo, ja que se coloca um modelo (que coincidentemente é o modelo de mulher das classes mais ricas) para as outras mulheres, claro que isto não é so para mulheres, mas elas são mais afetadas por esta cobrança já que existe uma logica machista(uma de muitas logicas machistas, a desta vez é a de que...homens são validados por atitudes, e mulheres por aparência).
Alem disto, qual o motivo de um concurso de beleza? Dizer qual é a mulher mais bonita do pais,
se neste concurso, praticamente todas as candidatas são iguais, então isto seria claramente uma tentativa de inserir um padrão de beleza.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Acordo entre visões diferentes

Bia e eu discutimos sobre a formação moral de um sujeito, A Bia tem uma visão católica e eu uma visão agnóstica, ou seja 2 visões bem divergentes, porem entramos em um consenso sobre como uma criança poderia ser criada.
Em nosso sociedade, a visão hétero normativa é incentivada constantemente para as crianças( em filmes, em novelas e tudo quanto é mídia, por exemplo, quanto de imagens uma criança vê de um homem e mulher se beijando? muitas né), e alem disto a visão homoafetiva é constantemente usada como forma de humor ou aberração ,porem não é vista como uma visão valida ou normal, mas constantemente caricaturada em programas de humor.
Eu acredito que existe um forte fator genético no homossexualismo, porem muitos vem argumentar comigo, que a sociedade também afeta essas "escolhas",( eu não vejo onde? se fosse por isso todo mundo era hétero ja que só existe incentivo para a hétero normatividade ) mas mesmo assim, o fator genético não é tudo, existe outros fatores que influenciam também, porem quando você incentiva a visão de que o homossexual é uma aberração esta escolha gera um arrependimento no homossexual ja que ele se sente culpado por ser diferente.
baseado nisto Eu e a Bia, entramos em um acordo,que para que a criação de uma criança seja dada esta "escolha", a criança tem que ter contato com grande numero de visões diversas, para que ela não tenham preconceito em relação ao desconhecido e já comece a ver estas outras pessoas como normais.
Este caso não se aplica só a homossexualidade, mas a outras culturas e etc. porem a Bia argumentou que é impossível ter contato com todos os tipos de culturas, e eu vou contra esta ideia dizendo que a pessoa teria que ter contato com as que ela teria a maior chance se conetar.
Então acabamos entrando nesse consenso . O mundo tem varias visões de mundo, muitas delas rivais, para que o mundo diminua os conflitos de crença, é necessário uma maior comunicação entre as culturas, para que o foco não seja a diferença entre elas, mas as coisas em comum.

Um exemplo de discussão entre pessoas com crenças totalmente diferentes que chegam à um acordo em comum é esta:

http://textosparareflexao.blogspot.com/2011/06/transcendencia.html

(o texto acima é sobre os "Diálogos de Waldemar Falcão, Marcelo Gleiser e Frei Betto em "Conversa sobre a fé e a ciência” (Ed. Agir)".)

Trechos do texto:
"
[4] Reparem que Frei Betto acaba de concordar com Gleiser no sentido de não aceitarmos a existência de verdades finais, acabadas, absolutas – ou, pelo menos, de não aceitarmos que já chegamos a sua compreensão completa. Todos aqueles que seguem manuais de verdades absolutas talvez ficassem atônitos ao saber que grandes religiosos e eclesiásticos, católicos como Frei Betto ou Pe. Fábio de Melo, antes consideram manuais de dúvidas divinas do que de verdades absolutas – embora todos os conheçam pelo mesmo nome. Onde há dúvida, há busca pela transcendência."
"
Frei Betto – Como soube fazer isso muito bem o apóstolo Paulo, que disse “fui grego com os gregos e judeu com os judeus”. Há uma briga explícita na Carta aos Gálatas, uma das 13 cartas contidas no Novo Testamento e que são consideradas sagradas pela Igreja Cristã, que Paulo escreveu, nas quais critica duramente Pedro. E Pedro era o papa! Pedro achava que para ser cristão o pagão deveria, primeiro, passar pelos ritos judaicos: circuncisão, observação dos ritos de pureza, etc. Paulo chega a dizer que Pedro é um homem de duas caras. Não conhecemos a resposta de Pedro, mas sabemos que Paulo viveu um momento da Igreja em que, pelo amor à Igreja, se podiam expressar críticas até ao papa, não tinha essa coisa de “amém” para toda forma de autoridade, achando que a autoridade é portadora da verdade. Muitas vezes ela falseia a verdade [7]."

Smorfs são sexistas?

o principio smorfette

O vídeo fala sobre o teste de Bachdel que é

  1. Existe mais de 2 mulheres no filme?,
  2. Elas falam entre si?,
  3. Elas falam de algo que não seja sobre homens?.
Se um filme responder Sim a estas 3 perguntas, ele não transmite ideias que reforção o patriarcado (claro que existe exceções).

sábado, 16 de julho de 2011

A regionalização da intolerância religiosa no Brasil

As discussões sobre intolerância religiosa no cenário atual têm tomado tanto espaço tão grande nas relações sociais que uma boa iniciativa foi realizada pelo governo brasileiro: a criação de um documento inédito que sistematiza casos de desrespeito à liberdade de culto no país. O estudo detalhado da ocorrência dos casos de discriminação religiosa auxilia na melhor divulgação do combate a essas práticas preconceituosas nas regiões mais afetadas, além de elencar quais são os principais fatores que movem atitudes de desrespeito no ciclo de convivência nas diversas religiões existentes.

A matéria completa sobre o documento pode ser vista a partir do link a seguir:
Outro programa para o combate a intolerância religiosa no Brasil, criado pelo Ministério de Cultura - Ministério da Educação - Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e Secretaria Especial de Direitos Humanos, foi a divulgação e distribuição gratuita de um DVD para todo o Brasil sobre “Diversidade Religiosa e Direitos Humanos” visando a busca pelo fim da discriminação por crença.

Trechos do vídeo podem ser acessados a partir dos links a seguir:

Parte 1


Fonte:

Parte 2


Fonte:

A identificação do problema que leva a intolerância religiosa já está sendo realizada, será então que precisamos da maior divulgação de documentos e pesquisas como essas, além de ver a aplicação dessa teoria na prática para que ocorra a extinção desse preconceito?
 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dia do homem??

Dia do Homem nada mais é que Relativizar Opressões Sociais Para Enaltecer Os Próprios Privilégios.
mas porque este dia existe? bom ele foi criado pela Onu para conscientizar o homem pela luta contra o sexismo, é mais ou menos como dizer que a luta feminista é masculina também, alem disto ele foi uma forma de tentar melhorar a saúde dos homens, já que por causa do sexismo eles evitam ir ao medico(fonte "UNESCO comes out in Support of International Men's Day", artigo no Trinidad Guardian)


Porem o sentido foi deturbado ,e agora ele se tornou uma forma de relativizar opressões sociais

E para somar a oque ja foi dito no texto, colocarei alguns dados:

· Estatísticas mostram que menos de 10% dos casos de violência
sexual chegam às delegacias de polícia. Além das seqüelas físicas e
psicológicas, as mulheres violentadas ficam mais vulneráveis a outros
tipos de violência, como prostituição, uso de drogas, Doenças
Sexualmente Transmissíveis (DST), distúrbios emocionais e psíquicos,
depressão e suicídio;
· De cada cinco mulheres, uma será vítima ou sofrerá uma tentativa de
estupro até o fim de sua vida, segundo a Anistia Internacional, 2004.
· De acordo com as Delegacias Especializadas no Atendimento à
Mulher, são registrados 15 mil estupros por ano. Desses, 16%
resultam em algum tipo de DST e uma em cada mil mulheres é
infectada pelo HIV.
· 1 bilhão de mulheres, ou uma em cada três do planeta já foi
espancada, forçada a ter relações sexuais ou submetidas a algum
outro tipo de abuso. 20% das mulheres são alvo de estupro, de acordo
com a Anistia Internacional, 2004.
· A cada ano são diretamente afetadas pela violência sexual cerca de
um milhão de crianças. Dessas, estima-se que 100 mil casos estejam
distribuídos entre Brasil, Filipinas e Taiwan. A informação é do Unicef,
2000.
· De acordo com a Organização Mundial de Saúde, até 69% das
mulheres relatam terem sido agredidas fisicamente e até 47%
declaram que sua primeira relação sexual foi forçada.
· De 85 a 115 milhões de meninas e mulheres são submetidas a alguma
forma de mutilação genital por ano, segundo a ONU, 1999.
· De acordo com o Fundo para o Desenvolvimento das Nações Unidas
para a Mulher (Unifem), o estupro marital é reconhecido
especificamente como crime em apenas 51 países e apenas 16 têm
legislação específica para agressão sexual.
· As mulheres latinas, particularmente as brasileiras e argentinas, são as
mais expostas a crimes sexuais no mundo. A América Latina registra
os mais altos índices de crimes sexuais. Cerca de 70% dos casos de
violência sexual são estupros, tentativas de estupro e outras
agressões sexuais.
· A Organização Mundial da Saúde constatou que, no Brasil, 10% das
mulheres na área urbana e 14% na área rural já foram forçadas
fisicamente a ter relações sexuais quando não queriam ou forçadas a
práticas sexuais degradantes ou humilhantes por medo do que o
parceiro pudesse fazer.

Fonte:Center for Women's Global Leadership · Rutgers,
desenvolvido pela Universidade de Nova Jersey

E mesmo assim comemoramos o dia do homem.



segunda-feira, 4 de julho de 2011

A luta falhou

No início deste ano houve a criação, em Genebra, de uma comissão internacional sobre políticas de drogas sustentada pela credibilidade de ex-presidentes, ganhadores do Prêmio Nobel, e especialistas de diversas areas das ciências humanas.

Um dos principais motivos para a criação dessa comissão é o vasto campo de atuação de traficantes de grande porte, como os traficantes internacionais, e de traficantes de pequeno porte, caracterizados principalmente por pessoas que vendem para poder consumir mais. Essa atuação, atualmente, representa um risco em potencial a várias democracias.

Nos ultimos 40 anos não houve significativa diminuição do uso e do comércio de entorpecentes, revelando um sistema de políticas anti-drogas (como educação de crianças e jovem acerca dos maleficios das drogas, políticas de coerção contra comércio e uso etc) ineficiente. A exemplo do exposto, nos EUA da década de 1970 pelo menos 50% dos estudantes do ensino médio disseram que já haviam experimentado algum tipo de droga ilegal. Na década de 2000 houve uma nova avaliação e o resultado foi que "48% dos estudantes de ensino médio disseram já ter usado algum tipo de droga ilicita".

Ancorados nas estatísticas pessimistas, alguns especialistas defendem a descriminalização ou mesmo a legalização da maconha, outros defendem o abrandamento da pena para traficantes de pequeno porte, o que tem sido recebido com hostilidade para a maioria dos envolvidos na comissão.

O que se tira de mais importante é o reconhecimento do problema e a busca por alternativas que visam oferecer caminhos novos para um debate que se mostrou ineficaz até hoje e sem consenso algum por parte dos integrantes e por parte da sociedade.

Fonte:
Clipping Eletrônico Associação dos Advogados de São Paulo (AASP)
Documentário "A História da maconha" - The History Channel

domingo, 3 de julho de 2011

“JEITINHO BRASILEIRO”: CULTURA IMPREGNADA DE PRECONCEITO OU PRECONCEITO IMPREGNADO DE CULTURA?

O propagado “jeitinho brasileiro” é visto como característica positiva do nosso povo, mas não deveria ser.

De fato, o sentido é positivo quando entendido de forma a ressaltar a flexibilidade, de escolher alternativas mais criativas para superar um obstáculo, mas quando o “elogio” generaliza-se vai de encontro, por inúmeras vezes, aos princípios que fundamentam uma sociedade democrática.

As regras são feitas para regular a vida em sociedade, tornando possível o exercício de direitos e deveres, a fim de que todos tenham tratamento equânime e possam atingir seus objetivos, coibindo atos que desestruturem a vida em sociedade.

O “jeitinho brasileiro” disseminou-se de tal forma que exterioriza o individualismo, a confusão entre o público e o privado, a falta de ética e o desrespeito às regras imprescindíveis ao exercício de uma cidadania plena. Ao contornar, “com esperteza”, os trâmites que o impedem de atingir seu objetivo imediatamente, o brasileiro espalha na sociedade a falsa idéia de que esta flexibilidade é uma alternativa perfeitamente aceitável para “pular etapas” de um sistema lento e extremamente burocrático.

O indivíduo e a sociedade perdem muito com esta atitude. De um lado, reproduzimos o preconceito de que nossas instituições são morosas, ineficientes e privilegiam somente “os espertos”; de outro, criamos o estigma de que o indivíduo, e em extensão, a sociedade brasileira é uma “torre de Babel”, em que não há respeito a direitos, nem a um processo transparente e comprometido com valores que enobrecem um povo.

Daí inúmeros males sociais ganham força e espaço: o nepotismo, a corrupção, o fisiologismo, a degradação de serviços públicos, a compra de serviços públicos essenciais (saúde, segurança,...), a falta de mérito e competência verificados em vários setores da sociedade e a presença de “autoridades” incapazes de cumprir com hombridade seu papel; isto porque há outro sistema de seleção, não o fundamentado na meritocracia, mas sim em um subproduto do “jeitinho brasileiro”: o “Q.I” (quem indica).

A nossa história tem muito peso para a formação de nossa cultura e também incute muitos preconceitos. Roberto Schwarz expôs um desses aparentes “pilares”, ou o que ele descreveu como “o nexo efetivo da vida ideológica” brasileira, ao tratar do “favor”. Este elemento danoso, que teve na figura do agregado sua caricatura, “Esteve presente por toda parte, combinando-se às mais variadas atividades, mais e menos afins dele, como administração, política, indústria, comércio, vida urbana, Corte, etc. Mesmo profissões liberais, como a medicina, ou qualificações operárias, como a tipografia, que, na acepção européia, não deviam nada a ninguém, entre nós eram governadas por ele. E assim como o profissional dependia do favor para o exercício de sua profissão, o pequeno proprietário depende dele para a segurança de sua propriedade, e o funcionário para o seu posto.” (p. 16, Roberto Schwarz, Ao vencedor as batatas, Editora 34, 2000)

Precisamos ser autênticos, mas não a este custo. Precisamos valorizar nossa história e cultura, contrapondo a cada estigma negativo que nos é atribuído, uma qualidade positiva. Somente com retidão, transparência e educação, nós, brasileiros obstinados “que não desistimos nunca”, poderemos edificar nossa sociedade em bases sólidas. Que o jeitinho brasileiro só esteja presente na garra e criatividade para construção desses valores.

terça-feira, 28 de junho de 2011

pós-modernidade do Patriarcado

"Os movimentos feministas denunciaram as relações hierárquicas entre os sexos, almejando colocá-las em um plano simétrico. Acreditamos que elas foram mais longe ao possibilitar que homens e mulheres saíssem do campo do singular para o domínio da pluralidade, do respeito às idiossincrasias. Preferimos o uso da expressão “mal-estar da pós-modernidade masculina” à crise de identidade masculina, por considerá-lo mais democrático. Assim cada homem, segundo seu próprio desejo e implicações psíquicas, possa descobrir a melhor forma de interagir consigo mesmo e com o mundo. Em outras palavras, o contexto pós-moderno possibilita que certos homens reflitam e modifiquem suas condutas sexuais caso desejem, bem como os autoriza a permanecerem representando o mundo através de uma ótica machista se assim o ambicionarem."

"sobre a crise da masculinidade, sugerimos, baseados em BOURDIEU (1999), que o homem, de maneira geral, tornou-se vítima do seu próprio afã de dominação sobre o gênero feminino. Se a cosmologia falocêntrica subjugou as mulheres, colocando-as em posições isubalternas, também produziu determinados tabus e mitos para a sexualidade masculina. Destacamos que a identidade masculina, na acepção deste sociólogo, é apreendida de forma relativa, sempre em oposição à feminilidade e aspirando a uma supremacia frente a outros homens. Além disso, a insígnia varonil é definida negativamente, ou seja, por aquilo que ele não é ou ao menos não deveria ser. Em outras palavras, o homem descobria primeiro as interdições do campo feminino para posteriormente descobrir o que a sociedade lhe reserva para alcançar os patamares da masculinidade."

"Desse modo, sinalizamos que os padrões culturais e as necessidades econômicas das diversas gerações erigem suas próprias exigências de comportamentos para homens e mulheres. Nessa direção, cabe referência à LANE (1996,p.16) quando considera a identidade como fruto da interação do indivíduo com os outros seres sociais e que a criança assume para si um mundo no qual os outros já vivem. Assim, acreditando que historicamente cada sociedade engendra critérios a serem cumpridos pelos homens para serem enquadrados dentro do campo da virilidade, BADINTER (1993), por exemplo, enumera três momentos decisivos na vida dos meninos na estruturação de suas identidades heterossexuais: a separação da mãe, a distinção entre seus corpos e o feminino, a prova de que não são gays. Pedro Nolasco (1995) acrescenta um outro: a necessidade de o homem desenvolver suas capacidades laborativas."

"a pesquisadora FERREIRA (1999) afirma que foi o movimento feminista que introduziu as discussões sobre a condição feminina no seio dos partidos políticos e das organizações sindicais maranhenses. Esta inserção das mulheres em lutas por uma melhor situação trabalhista ajudou a politizar seus próprios movimentos, que, até então, tinham um caráter desvinculado de qualquer engajamento partidário. Além disso, sinaliza que a década de 1980 foi o período de eclosão das conquistas feministas no Maranhão, graças à disseminação de políticas públicas que priorizaram a assistência governamental ao sexo feminino."

O Artigo abre a duvidas para o debate:
"como esses homens assimilaram as conquistas feministas? Foram obrigados a reavaliar suas posturas másculas? Ou continua a relacionar-se com suas parceiras seguindo uma ótica machista? Está mais livre para falar de seus sentimentos? Ainda acredita que é dever masculino o sustento da família? A independência financeira e a exigência sexual de sua parceira são vistas de maneira ansiogênica?"

Alem disto
"Considerando-se o contexto do grupo de homens investigados, um primeiro ponto a ser levantado é que não se pode falar em identidade masculina, mas em identidades masculinas, pois a expressividade de opiniões, algumas antagônicas, não permite a uniformização desta categoria."

"Vimos que os contextos socioculturais definem os próprios papéis masculinos e femininos segundo suas convivências e de forma a manter seu equilíbrio e funcionalidade interna, contudo a dinamicidade das relações de gêneros gerou e gerará, ela própria, transformações na concepção de masculinidade e feminilidade."

"Assim, alguns homens viveriam um “mal-estar pós-moderno”, pois estariam assustados com a possibilidade de reagir às demandas do ambiente, conforme suas subjetividades e as exigências de suas realidades psíquicas, algo para que não foram educados. Empregando-se o termo crise de forma abrangente, caímos em generalizações sempre nefastas para o ego, principalmente o masculino, devido a sua suscetibilidade a normatizações sociais. Pensar-se-ia novamente em homogeneizações, uniformizações de cânones viris. Passar-se-ia da assimetria sexual imposta pelo patriarcado para a obrigatoriedade de uma sensibilidade do ser masculino. O homem, por não internalizar rapidamente esta mudança de padrões, estaria em crise."

Homofobia e LGBTTTs

Resolvi colocar o post da professora doutora Lola Aronovich da UFC de hoje, porque acho que responde muitas duvidas sobre o assunto:

"Quando você sentiu vergonha de ser hétero? (nesse caso, em geral, a gente nem costuma se envergonhar dos outros héteros!). Quando você foi discrimina
do por ser hétero? A única resposta que um hétero tem na ponta da língua pra essa pergunta é “Quando fui a uma boate gay”."
Primeiro que não acredito muito nisso (héteros são bem tratados em boates gays).
Depois que, olha só, você teve que ir a um lugar específico para ser discriminado. Prum gay, lésbica, trans ser discriminado, tudo que el@ tem que fazer é sair à rua. Aliás, serve ser discriminado dentro de casa também. Não tem que ir a lugar nenhum pra sofrer discriminação, basta existir."
"Portanto, ter orgulho de ser hétero é querer celebrar a sorte que você tem simplesmente por ter nascido hétero."
"você tem e vai continuar tendo todo o direito de andar de mãos dadas, beijar, casar com alguém do sexo oposto, adotar uma criança, e ninguém vai te olhar feio. Ninguém vai te expulsar do recinto, ninguém vai te bater ou matar, ninguém vai querer te transformar, ninguém vai dizer que se envergonha de ser seu pai/mãe, ninguém vai pensar que sua orientação sexual é depravada ou relacioná-la à pedofilia, ninguém vai te despedir por ser hétero"
"ninguém vai dizer que o que você faz é pecado e que você vai arder no inferno por conta disso. Ou seja, você não precisa de uma data específica pra defender sua orientação sexual. Ela não está sob ataque. Todo santo dia você está mostrando seu orgulho hétero. Todo dia é um desfile sem fim pra você. Então, em vez de se orgulhar do seu privilégio, que tal envergonhar-se de viver numa sociedade que insiste em negar direitos a quem não é “normal” como você?"


outra coisa, se alguem conhece um homoafetivo que detesta héteros, isto não significa que os homoafetivos odeiam os héteros.

Alem disto, as frases dos homofobicos são todas iquais veja:

Na minha opinião, não existe motivo para se orgulhar de uma coisa que a muita gente tem, tipo, comemorar o fato de ter mão, e até fazer um dia da mão.
Mas se existe discriminação sou totalmente a favor de manifestações, afinal, o mundo só mudou porque as manifestações aconteceram.

Mais dados:
ninguém escolhe sua orientação sexual ou seja "ser gay não é escolha sexual":

e o estudo no livro “Handbook of Behavior Genetics” (Springer, 2009 - ISBN 978-0-387-76726-0; Cap. 19). o artigo a seguir é de autoria de Khytam Dawood, J. Michael Bailey e Nicholas G. Martin que são do Departamento de Psicologia e Centro de Genética do Desenvolvimento e da Saúde, Universidade Estadual da Pensilvânia, EUA.(o Artigo completo aki: http://genepi.qimr.edu.au/contents/p/staff/NGMHandbookBehGen_Chapter19.pdf )

"Estudos de gêmeos, que comparam se o comportamento em questão é manifestado mais em gêmeos monozigóticos que em gêmeos dizigóticos. Manifestação maior em gêmeos monozigóticos indicaria base genética porque eles são geneticamente idênticos.

É importante notar que estes estudos precisam assumir que os gêmeos foram criados num mesmo ambiente, para que a diferença entre eles não possa ser atribuída aos ambientes em vez de à herança genética.

Os geneticistas calcularam um valor chamado concordância, que nada mais é que a proporção de pares de gêmeos em que a característica se manifesta nos dois em relação a todos os gêmeos estudados em que a característica se manifesta ao menos em um. Em dez estudos de homossexualidade, a média das concordâncias em gêmeos monozigóticos é 50% e nos dizigóticos é 14%, aproximadamente. A diferença é clara e estatisticamente significativa.

Outros estudos mais recentes dão valores diferentes, mas a tendência é: sempre que um gay tem um irmão gêmeo, é mais provável que o irmão gêmeo também seja gay se ele for gêmeo idêntico (monozigótico). Isso também corrobora participação de uma base genética na manifestação da orientação sexual, já que os gêmeos idênticos partilham praticamente 100% de seus genes, enquanto os gêmeos fraternos (dizigóticos) partilham 50% de seus genes como quaisquer outros irmãos. "

Sobre a fala da deputada Myrian Rios, que comparo homoafetividade a pedofilia , os estudos mostram o contrario:

In a study of 136 convicted sex offenders, over 80% had been involved in adult long-term heterosexual relationships.
- Simon C--1992, J Interpersonal Violence. 7:211-225
In a seventh study at the Children's Hospital in San Diego, of the 140 boys presenting with sexual abuse, only 4% of the assaults were by homosexuals.
- M Spencer-1986, Pediatrics 78 (1):133-138
In an eighth study, also at a children's hospital, of 269 children evaluated for sexual abuse by known adults, 0.7% of the children were abused by an indentified gay or lesbian adult and 88% were abused by identified heterosexuals. The rest of the children (of a total 352 children sample) were either abused by another child or teenager (21% of the total sample, all of whom were abused by opposite gender children/teens), or by strangers for whom no sexual orientation was known (11.6% of the total sample).
- Jenny C--1994, Pediatrics. 94(1):41-4

Privilégios dos heterossexuais:

"As piadinhas não giram em torno da minha orientação sexual."
"Não acham que sou um molestador de crianças."
"Não há passagens na bíblia condenando minha sexualidade."
"Não vão deixar de me contratar ou me mandar embora por eu gostar de mulher."
"Minha mulher pode adotar o meu sobrenome, se quiser."
"Ninguém quer me curar da minha sexualidade."
"Posso fazer declaração conjunta de imposto de renda."
"Posso adotar crianças e a sociedade vai me congratular por isso, não me achar um pervertido."
"Eu sou a norma"
"Meus pais não precisam fazer terapia pra aceitar minha orientação sexual. Aliás, nem preciso falar disso com eles."
"A polícia não me destrata por eu ser hétero."
"Quando ligo a TV ou vou ao cinema, vejo um monte de personagens héteros heroicos na tela."
"Skinheads não querem me espancar na rua por desconfiarem do meu jeito."
"Com minha namorada, podemos nos comportar como casal em reuniões de família, de trabalho e de amigos, que não estaremos "agredindo" ninguém."
"Minha sexualidade é considerada absolutamente normal."
"Posso abraçar, beijar e ficar de mãos dadas em público, sem que as pessoas achem que esta "exibindo" a sexualidade."
etc...etc...